O
efeito colateral do uso de corticóides
Quando foram desenvolvidos, em 1952, os medicamentos à base
de corticóides ou corticosteróides - hormônios
produzidos quimicamente - ganharam o status de grande descoberta,
por causa de suas propriedades antiinflamatórias. Eficazes,
eles são capazes de curar alergias e dermatites em questão
de dias. Três anos após sua criação,
os primeiros efeitos colaterais começaram a ser catalogados.
De acordo com um estudo publicado recentemente pelo "Journal
American Academy of Dermatology", nos EUA, o mesmo mecanismo
de ação dos remédios à base de corticóides
responsável pela cura é também responsável
pelos efeitos colaterais que surgem pelo uso indevido, dentre eles
acne, osteoporose, glaucoma e hipertensão.
O pior da história é que estes remédios podem
ser obtidos sem receita médica em muitas farmácias
brasileiras. Com isso, fica fácil abusar deles. Uma vez
indicado, a pessoa poderá recorrer a ele toda vez que o
problema reincidir. As crianças, que respondem por 30% da
população mundial vítima de alergias e dermatites,
acabam sendo as maiores vítimas. "Como a pele delas é mais
fina e delicada, estão mais sujeitas aos efeitos colaterais
dos corticóides", explica a professora de Dermatologia
da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
(USP) Zilda Najjar.
Existem vários tipos de corticosteróides e, com
o tempo, novos são sintetizados. "O intuito é conseguir
remédios mais potentes e com menos efeitos colaterais",
explica Zilda. Eles são divididos em dois tipos: tópicos
(de aplicação local, como pomadas, cremes e loções)
e sistêmicos (como os inalatórios e orais). Outra
classificação é quanto à eficiência:
há os superpotentes, os potentes, os de média potência
e os de baixa potência.
Quanto mais potentes, maior a penetração na pele
do paciente e maior a possibilidade de efeitos colaterais. Para áreas
afetadas cuja pele é fina ou crianças, por exemplo,
o melhor são os de baixa potência.
Em caso de abuso (por automedicação) ou uso por
tempo prolongado, os corticóides sistêmicos podem
interferir no crescimento dos pequenos. Absorvidos em grandes quantidades
pela pele, eles interferem na produção do corticóide
natural pelas glândulas supra-renais.
Nos adultos, a mesma medicação pode causar osteoporose,
aumento de glicose no sangue, hipertensão e Síndrome
de Cushing. Caracterizada por excesso de pelos no corpo, pressão
alta e estrias, a disfunção tem tratamento específico,
mas nem sempre as complicações têm cura.
A dona de casa Maria Lúcia (sobrenome não revelado),
de 59 anos, começou a desenvolver alguns dos sintomas da
síndrome há dois anos, graças ao uso indiscriminado
de um comprimido à base de corticóides. "Uma
amiga me indicou para a minha dor de cabeça, mas eu tomava
o tempo todo. Com o tempo, comecei a engordar, mas nem desconfiava
que era por causa do remédio", diz ela, que comprava
o medicamento de vendedores que se abasteciam no Paraguai. Hoje
ela faz tratamento com um endocrinologista para controlar os sintomas
da disfunção.
Graças à má fama dos corticosteróides,
muita gente deixa de usá-los. Zilda, no entanto, acha que
essa fama de vilão é injusta. "Bem utilizados,
eles são seguros", diz a dermatologista. O ideal, quando
os sintomas da doença retornam, é procurar orientação
médica.